É hora de tirar a deficiência do armário: quem tem Roberto Carlos, não precisa de Cleo Pires

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

As Paralimpíadas são a melhor oportunidade que já tivemos na vida de falarmos sobre o estigma que a deficiência carrega no Brasil. Ninguém fala sobre isso. Pessoas com deficiência só alcançam alguma notoriedade ou exposição na mídia, por exemplo, quando “derrubam” alguma “barreira” e se transformam em “exemplos de superação” ou “inspiração”, como nossos “heróis paralímpicos”, os “superhumanos”.

Que tal falarmos apenas de humanos?

Aproveitando a onda empoderadora dos movimentos negro, feminista, LGBT, entre outros, tá mais do que na hora de tirar a deficiência do armário e tratá-la de forma natural, como parte da identidade e da vida das pessoas, sem vergonhas ou receio de despertar “pena”. Ter uma deficiência não é ser menos que ninguém. O mesmo vale para doenças como o câncer, AIDS, Parkinson, Alzheimer, problemas cardíacos e transtornos mentais como depressão, esquizofrenia, bipolaridade e por aí vai.

Na nossa cultura, esses assuntos são considerados, delicados, íntimos e, por não serem discutidos abertamente, são tratados como tabu há séculos pela nossa sociedade. Sua avó sussurra ou faz uma expressão trágica pra falar a palavra câncer? Ou pior, nem dá nome aos bois, referindo-se “àquela doença”? Pois bem, é chegada a hora de, ao invés de baixar a voz, aceitar. E, mais do que isso, assumir essas condições como parte de nós mesmos. Ninguém precisa se tornar ativista da noite pro dia, basta parar de tentar esconder o que é, ou o que tem.

Mas por que isso é tão importante?

Esconder uma deficiência ou doença contribui para o que chamamos de ciclo da invisibilidade - a pessoa com deficiência não sai de casa. Sem sair de casa, ela não é vista e medidas que garantam sua inclusão não são providenciadas. Elas continuam sendo ignoradas e permanecem invisíveis.

Em geral, alguém só tem contato com pessoas com deficiência se recebe alguém na família ou se adquire alguma limitação por obra do destino. Aliás, vale lembrar que, se você não morrer cedo, é quase certo que terá um ou mais tipos de deficiência até o fim da vida. É bom pensar nisso antes de reclamar do custo de alguma obra de acessibilidade.

Você sabia que as pessoas com deficiência formam a maior das minorias? Existe 1 bilhão de pessoas no mundo, 80% delas em países em desenvolvimento. No Brasil, correspondem a 23,9% da população, segundo o Censo 2010. Isso é quase um em cada quatro brasileiros. Mas será que 1 em cada 4 de seus amigos, colegas de escola ou trabalho tem uma deficiência?

Onde será que estão essas pessoas? Algumas habitam o tal ciclo da invisibilidade. Outras estão incluídas por aí, mas preferem esconder suas deficiências.

E isso me leva ao Roberto Carlos.

Doeu no coração, ao assistir ao espetáculo de abertura dos Jogos Paralímpicos, ouvir a canção  icônica do rei, “É Preciso saber Viver”, entoada pelo Seu Jorge. Nada contra o Seu Jorge. Mas imaginem o impacto na mídia nacional e internacional, se Roberto aparecesse no palco assumindo sua prótese na perna como a linda modelo e atleta Amy Purdy, ou os milhares de atletas paralímpicos do mundo inteiro que desfilaram com orgulho e alegria por serem quem são no Maracanã! Isso sim seria uma mensagem digna do mote #SomosTodosParalímpicos, e não a amputação Photoshopada da Cleo Pires. Temos celebridades autênticas para chamar atenção para os Jogos, não precisamos de fake.

Pra continuar na realeza, outro que fez falta foi Pelé. Mas nossa sociedade prefere não ver a imagem do maior atleta de todos os tempos numa cadeira de rodas ou usando um andador. Preferimos guardar na memória o momento do seu milésimo gol e tapar o sol com a peneira. Que tal encarar o fato de que esse de hoje é o mesmo Pelé? Faz parte da vida. Simples assim. É tabu falar de deficiências e doenças. Ninguém comenta. Ninguém faz perguntas em entrevistas por considerar constrangedor ou invasivo. Funciona como uma regra não escrita.

Na abertura das Olimpíadas, ao ler seu discurso o Presidente do Comitê Olímpico, Carlos Alberto Nuzman, exibiu os sintomas de Parkinson. Na abertura das Paralimpíadas usaram um pódio para reduzir o movimento involuntário de suas mãos. Alguém comentou isso? Não, preferimos olhar para o lado, indiferentes, ignorar, mudar de assunto. Desacostumadas a tratar de deficiência com naturalidade, no máximo as pessoas lamentam: “Você viu? Coitado…” Coitado nada, Parkinson ou não Parkinson, Nuzman é um realizador impressionante! E se não fosse, tudo bem também! Bola pra frente!

Saindo do armário.

 

Quando uma personalidade resolve falar sobre alguma condicão, as manchetes pululam: “Exclusivo”, fulano corajosamente “revela”! Esse sensacionalismo só contribui pra piorar o tabu. Não é de admirar a resistência em se expor. Há pessoas públicas que preferem preservar sua vida privada e devemos respeitar isso.

Recentemente, a cantora Olivia Byington lançou o livro “O que é que ele tem?”, em que conta a história do filho, João, que nasceu com a síndrome de Apert, há 30 anos. Nunca escondeu o fato, mas agora sentiu que era a hora de escrever sobre isso, com verdade, mostrando a vida como ela é. Em época de Paralimpíadas, a obra tem repercutido positivamente. Numa passagem do livro, a autora escreve “Coisas que acontecem, são da vida e provam que a gente não pode escolher tudo. Lutar contra, querer saber o que foi roubado de você é sinônimo de frustração. Não bota ninguém para a frente.”

Os primeiros abrirão as portas para os próximos, até que a deficiência e a doença sejam encaradas de forma natural, apenas como parte da diversidade humana. Pode acreditar que sair do armário deixa mais leve, além de contribuir para que seu entorno também se contamine pela verdade e pela solidariedade.

Por Patricia Almeida - Jornalista, ativista pelos direitos das pessoas com deficiência e Mestranda em Estudos da Deficiência na City University of New York - CUNY.

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Gadim Brasil - Aliança Global para Inclusão das Pessoas com Deficiência na Mídia e Entretenimento