Rompendo a Invisibilidade
Artigo: Wellington J C Torres Jr   |   Colaboração: Paula Wenke

    Fabiana estava apressada, eram 14h e aquela era a quarta turma do fundamental em que ela entrava para ensaiar com as crianças a música para o dia da festa. Ela estava em um misto de cansaço e empolgação, queria que tudo ficasse lindo. Entrou esbaforida na turma, foi logo dando boa tarde e perguntando se todos haviam recebido sua cópia de “O que é, o que é?”, a música de Gonzaguinha, você sabe… aquela que diz “viver e não ter a vergonha de ser feliz…”.     A classe respondeu em uníssono que sim.
    Então de pronto ela pediu. “Ótimo, então vamos todos ficar de pé pra cantar bem bonito”. A criançada rapidamente se levantou e começou o buxixo bem peculiar da idade. “Tia Fabi.” A fala veio da criança que ficava na terceira fileira na segunda coluna perto da porta.
    Fabiana, ainda distraída, inclinou a cabeça para identificar a criança que lhe chamava e imediatamente o semblante dela se alterou, seu rosto ficou pálido e ela se deu conta do que tinha feito. “Tia Fabi, eu não preciso ficar em pé para cantar bonito” e, sem esperar autorização da professora, a criança começou a cantar “Imagine”, de John Lennon – você conhece, é claro! É aquela que diz “You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one, I hope someday you’ll join us and the world will live as one” (Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único, espero que um dia você se junte a nós e o mundo viva como um) com uma voz de anjo e um inglês que era surpreendente para a idade dela. A canção e a voz da criança atingiram duas vezes o coração de Fabiana, a primeira pela profundidade do que ouvia, a segunda porque a voz era do Carlinhos, o garoto na cadeira de rodas.
    A invisibilidade sempre permeou a pessoa com deficiência. Certamente você, se procurar, encontrará relatos de como, em um restaurante, a conta foi entregue para a pessoa sem deficiência, ou que, ao fazer uma pergunta em um shopping, a resposta foi dada ao acompanhante, como se uma bengala de cego, uma cadeira de rodas ou a dificuldade de dicção devido a uma paralisia cerebral fossem obrigatoriamente sinônimo de incapacidade de comunicação. Mas hoje, em pleno século XXI, urge a mudança de postura e a reintegração desses cidadãos ao lugar que sempre lhes pertenceu. E é bom perceber que a mídia tem (ok, algumas vezes de modo equivocado) buscado ser parceira nessa mudança de comportamento. A arte, assim como o esporte, tem sido ao longo do tempo mensageira da capacidade que muitas vezes é subestimada por uma “deficiência” de percepção – perdoe-me o trocadilho infame – alimentada pelo desconhecimento ou pela ausência da visualização do indivíduo, da pessoa, para além de sua deficiência. Pouco importa se Frida Khalo, Toulouse Loutrec, Roberto Carlos, Steve Wonder, Ray Charles, Stephen Hawking, Peter Dinklage, Kiera Allen e outros tantos tinham ou têm alguma deficiência. Seu legado, sua arte, sua ciência é que os definem. É a excelência da entrega o item de mais valia.
    É por isso que iniciativas na publicidade, TV, cinema e outras artes e mídias inserem a pessoa com deficiência, representando a si e a sua realidade. Isso é fundamental para a mudança de ótica e esvaziamento de clichês. Torna-se premente um movimento coordenado de informação e chamamento para incrementar essa participação.
    Um acordo solidário entre a mídia, entidades de artistas e público possibilitará entender o caminho que devemos trilhar para tirar da invisibilidade a pessoa com deficiência. Espaços em publicidade, canais de TV e streaming, cinema. A seleção e preparação de modelos, atores e atrizes, roteiristas e outros tantos profissionais que podem contribuir para uma nova visão de UNO, pois a humanidade é plural e a pessoa com deficiência SEMPRE foi parte dessa pluralidade, mesmo que tenha ficado durante tanto tempo relegada à invisibilidade. INVISIBILIDADE NUNCA MAIS.

Wellington. Homem branco de cabelos curtos, usa um casaco azul escuro sobre uma camiseta vermelha, tem a cabeça um pouco abaixada em posição de desenhar. Ao fundo uma pequena floresta.

Wellington J C Torres Jr é designer gráfico, ilustrador 2D e 3D, escritor e quadrinhista. É Conselheiro da GADIM Brasil- Aliança Global para a Inclusão da Pessoa com Deficiência na Mídia e no Entretenimento. Entre seus livros, o mais recente, “Berk”, conta a aventura de uma família em que pai e filho são cadeirantes. Também mantém postagem semanal de seu personagem de HQ, também cadeirante, Gazoo, em seu perfil no Instagram @wellington.ilustra. Wellington teve poliomielite na infância e, assim como os personagens de seu mundo criativo, usa cadeira de rodas.
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Instagram: @wellington.ilustra

Paula. Mulher branca de cabelos longos, loiros e cacheados, usa uma camiseta preta, brincos circulares vermelhos e um cordão com um grande pingente em formato de concha, também vermelho.

Paula Wenke é Coordenadora e Conselheira da GADIM Brasil (Global Alliance for Disability in Media and Entertainment), Criadora do Teatro dos Sentidos e do MAIS – Movimento Arte Inclusiva. (Páginas do MAIS no Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100073069703658
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