Por Patricia Almeida

Dois movimentos surgiram no Brasil propondo a unificação dos Jogos Paralímpicos com os Jogos Olímpicos. A ideia não é nova. Há anos ativistas do movimento das pessoas com deficiência questionam a separação dos dois eventos. A segregação existe, inclusive, nos Jogos Paralímpicos, onde atletas com deficiência intelectual, por exemplo, não têm oportunidade de competir, ficando limitados ao Special Olympics.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Unifica Jogos, Já!

 

O Unifica Jogos, Já/Unify Games, Now!, criado por Flavio Scavasin, mas levado a cabo de forma colaborativa, tem uma página no Facebook convocando ativistas para que levem cartazes para os Jogos Paralímpicos no Rio defendendo a união dos dois eventos.

“Pedimos o apoio de todos aqueles que participarão das Paralimpíadas, com início no próximo dia 7!

Estamos (movimentos de pessoas com deficiência) em articulação pelo fim da segregação dos atletas com deficiência nesse grande evento esportivo.

Para isso, solicitamos que escrevam cartazes com as frases “UNIFICA JOGOS JÁ!” e “UNIFY GAMES NOW!” e divulguem sua torcida com esses dizeres através das hashtags #unificajogosja e #unifygamesnow.

Por que separados os dois jogos? Por que não fazer uma abertura única, com todos os atletas e paratletas e igualmente o fechamento?

Por que fazer que a Paralimpíada seja vista como “resto” da Olimpíada, se dá para fazer tudo junto, apenas aumentando os dias da competição, fazendo com que sejam disputadas todas as categorias. Afinal, já não é assim de certa forma? Ou um boxeador peso pena luta com um peso pesado?

Lembramos que um atleta não fica na Vila Olímpica por todo o período. Há os que chegam no início e se vão, para dar lugar a outros.

O mesmo deve ocorrer com atletas e paratletas, como prevêem todas as convenções internacionais, em especial, a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Organização das Nações Unidas.”

https://www.facebook.com/UnifyGamesNow/?fref=ts

 

 

Integração entre Jogos Olímpicos e Paralímpicos

 

 

 

Já Consuelo Machado lançou o seguinte abaixo-assinado online no Change.org, em português, inglês e espanhol:

“A Rio2016 acabou – a chama olímpica foi apagou, foi extinta na cerimônia de encerramento!

A chama olímpica que veio de Olympia, Grécia, viajou pelo mundo cruzando terra e mar, atravessou países inspirando as pessoas com o espírito olímpico apagou antes do início dos Jogos Paraolímpicos!  E a cada 4 anos isso acontece, insultando o espírito humanístico das Olimpíadas!

Como podemos dizer que vivemos em um mundo inclusivo quando todos os 207 países que participaram da Rio2016 aceitam este apartheid: 2 eventos, 2 chamas, 2 cerimônias de abertura e duas cerimônias de encerramento – tudo atrelado a uma grande diferença de tratamento (patrocínio, preços, Cobertura na TV e até nos preços dos ingressos) demonstrando que existem 2 classes de eventos:  Os Jogos Olímpicos, um evento classe A, e os Jogos Paraolímpicos, um evento que fica com as sobras!

A separação enter jogos Olímpicos e Jogos Paraolímpicos é a prova real de que todas essas nações, não só o Brasil, não estão livres do preconceito e não são inclusivas como deveriam, apesar da maioria ter assinado a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência das Nações Unidas – esta segregação é um verdadeiro apartheid!

Aonde estão todos os jornalistas, os correspondentes internacionais, a multidão de torcida?  Todos já deixaram o Brasil e os Jogos Paraolímpicos ainda nem começaram! Todo o brilho das histórias de superação, ultrapassar os limites e o espírito Olímpico não são verdadeiras se o  próprio evento traz em si sua própria segregação e sua própria história de preconceito.

Os Jogos Olímpicos devem ser únicos e inclusivos, para todos.  Provavelmente seria necessário uma ou duas semanas a mais, alternando dias e datas para as competições e alongando o evento, mas a intenção é de integrar os dois eventos, com competições de atletas com diferentes  habilidades começando e terminando no mesmo dia, enquanto a única chama olímpica está acesa.  Essa é a coisa certa a fazer!  O espírito olímpico é  sobre unir TODAS as pessoas para celebrar esporte e cultura.”

https://www.change.org/p/international-olympic-comitee-integration-between-olympic-and-paralympic-games

O Business Insider publicou artigo recentemente com o título “Por que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos ainda são eventos separados?“, em que ouviu o Comitê Paralímpico Internacional, que explicou que os dois Comitês – Olímpico e Paralímpico – são organizações diferentes, mas que têm um acordo de cooperação para que os jogos ocorram em dois momentos diferentes, sendo promovidos de forma colaborativa até 2032.

A união pode não ser para agora, mas discussão sobre inclusão é sempre necessária e bem-vinda.

Fonte: Inclusive

Jogos Unificados

Alice no País da Paralimpíada

Ao considerarmos os diferentes grupos humanos, naturalmente não incluímos pessoas sem pernas, braços ou em cadeiras de rodas

POR ANDREI BASTOS

19/08/2016 0:00 / atualizado 19/08/2016 8:08

No País das Maravilhas de Alice, os seres mais diversos interagem, de todas as formas, sem identificar as diferenças entre eles como fatores de preconceito e discriminação. As aventuras e desventuras dos seus personagens, por mais fantasiosas, expressam a maneira de ser de cada um no ambiente comum do País das Maravilhas.

 

Já no mundo dos seres nada fantasiosos, as indicações são, como regra, de impossibilidade de interação, mesmo entre iguais, geralmente dando um caráter de excepcionalidade positiva quando processos de interação são bem-sucedidos. Assim é a natureza humana fora do País das Maravilhas.

 

Talvez possamos ter a expectativa de que o mundo em que vivemos venha a acolher os seres humanos mais diversos, por conta das maravilhas que nos são apresentadas pela ficção e pela tecnologia, mesmo quando diferentes do mundo de Alice.

Aliás, se considerarmos que as histórias de ficção anteciparam muito do que hoje a tecnologia nos apresenta como banal, podemos aceitar como premonitórias as aventuras de seres muito diversos, provenientes dos mais profundos recônditos da imaginação do homem, seja voando, pisando na Lua, falando diretamente com quem está do outro lado do mundo, conhecendo e convivendo com “seres” tão diferentes, da mesma forma que os personagens do País das Maravilhas.

 

Sem dúvida, estamos muito longe de contarmos com tal acolhimento das diferenças no mundo em que vivemos. Mas alguns passos importantes já foram dados. As diferenças de gêneros começam a ser aceitas, as mulheres firmam, cada vez mais, seu papel na sociedade, preconceitos de cor ou raça já são considerados “antiquados”, embora ainda falte muito.

 

Mas podemos perceber que todos estão dentro de uma certa conformidade anatômica humana dominante no inconsciente coletivo, com duas pernas, dois braços etc. e, o mais importante, com mobilidade autônoma. Ao considerarmos os diferentes grupos humanos, naturalmente não incluímos pessoas sem pernas, braços ou em cadeiras de rodas.

 

Encarando como natural o “esquecimento”, não o fazemos apenas por uma questão cultural, embora a cultura seja o único caminho para introjetarmos em nossa psiquê tais modelos diferentes de seres humanos. Esses humanos, chamados de pessoas com deficiência, embora já tenham conquistado muita coisa em termos de direitos, ainda se deparam com o imenso e intransponível muro da invisibilidade e estão sempre sendo isolados em guetos. Assim é, como no exemplo mais evidente, que trata justamente da performance do corpo humano, com a separação entre Olimpíada e Paralimpíada.

Ora, se temos nos Jogos diferentes modalidades esportivas e diferentes categorias dentro de cada modalidade, por que não incluir no conjunto das competições as práticas esportivas das pessoas com deficiência como categorias das diversas modalidades?

Para que essa ideia possa ser absorvida e entendida por todos os tipos de pessoas, com e sem deficiência, e seja realizada plenamente por todos — atletas e público —, ouso apresentar o País das Maravilhas como candidato à realização da próxima Olimpíada, totalmente inclusiva.

Andrei Bastos é jornalista cadeirante e integrante do Fórum Nacional de Educação Inclusiva


Fonte:  http://oglobo.globo.com/opiniao/alice-no-pais-da-paralimpiada-19952293#ixzz4IkSab7W1 
 

Por que eu sou contra a Paralimpíada

Por: Lucas de Abreu Maia (*)  25/08/2016 às 19:48

(*) Lucas de Abreu Maia é jornalista e doutorando em Ciência Política na Universidade da Califórnia. É cego de nascença.

 

Os ingressos oficiais mais caros para a Olimpíada do Rio chegaram a ser vendidos a 1200 reais. Na paralimpíada que começa em 7 de setembro, os melhores assentos serão vendidos, no máximo, a 130 reais, mais de nove vezes menos. Se a diferença de preço não diz nada ao leitor, deveria: é sinal de que tem ao menos nove vezes menos gente disposta a assistir aos atletas paralímpicos competirem. Conforme são estruturadas, as paralimpíadas são um evento excludente para espremer o resto de lucro possível dos Jogos Olímpicos e, de troco, dar uma sensação de empatia aos telespectadores sem deficiência que veem histórias de superação pela televisão.

Não fui sempre dessa opinião. Em 2007, recebi um convite para ser repórter no Parapan. Aceitei porque era um moleque inseguro de 21 anos, louco para ter uma experiência jornalística real. Mas aceitei cheio de receios. A ideia de uma competição para deficientes me incomodava, mas eu não sabia exatamente o porquê. Profissionalmente, eu não cursava faculdade de jornalismo para virar repórter sobre deficiência, ou para pessoas com deficiência. Queria ser um repórter com deficiência, ponto. Isso não deveria dizer nada sobre a qualidade ou o foco do meu trabalho. Durante a cobertura, todos os meus receios se confirmaram.

É esse o problema do paraesporte – a ideia de que exista qualquer coisa para deficientes. No caso da paralimpíada, cria-se uma competição de segunda classe, com ingressos a preços ridículos, porque ninguém quer pagar caro para assistir um evento de segunda classe. A mensagem é uma só: os atletas são de segunda classe.

Mascara-se o fato de que pessoas com e sem deficiência podem perfeitamente concorrer em pé de igualdade em vários esportes. Judô, natação e adestramento de cavalos, por exemplo, não são em princípio inacessíveis a pessoas cegas. Já houve ginasta sem uma perna competindo nas olimpíadas.

O esporte é, por definição, um estímulo às diferenças biológicas entre pessoas. Michael Phelps só é Michael Phelps porque tem pulmões anormalmente grandes. Os maiores maratonistas do mundo têm, invariavelmente, uma proporção maior de hemácias no sangue. Por que diferenças mais visíveis não podem também ser celebradas nas olimpíadas? Claro que vários esportes exigem adaptações para que pessoas com deficiência possam neles competir. Exemplos clássicos são vôlei ou basquete em cadeira-de-rodas. A solução, no entanto, é tão óbvia que me espanta ninguém tê-la posto em prática ainda. O Comitê Olímpico Internacional já admite que há vários esportes em que atletas com diferenças biológicas não conseguem concorrer em pé de igualdade – por isso há modalidades femininas e masculinas. Por que não adicionar aos Jogos Olímpicos modalidades de esportes adaptados?

O movimento por direitos de pessoas com deficiência pode ser sintetizado como o esforço para que sejamos integrados à sociedade – na escola, no trabalho e no lazer. Diferentes nas necessidades, porém iguais no talento. Mas, em vez de criar condições para que compitamos em pé de igualdade, a Paralimpíada aproxima a linha de chegada para que a alcancemos mais facilmente – sem competição externa. Claro que a diversidade física deve ser celebrada. Mas essa celebração deve se dar no mesmo estádio; não quando as luzes do evento principal já se apagaram.

Poucas coisas são mais ofensivas para uma pessoa com deficiência que a tal da história de superação. Ninguém tem de se orgulhar de viver uma vida completa, independentemente de desafios. Não é essa a história de todos nós, com ou sem deficiência? A paralimpíada é um evento discriminatório porque ignora todos os aspectos mais interessantes da personalidade e da história de um indivíduo para reduzir-lo a suas limitações físicas. É um sinal da falta de visibilidade das pessoas com deficiência que ainda seja considerado um avanço um evento feito para excluir, em vez de integrar.

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/olhares-olimpicos/por-que-eu-sou-contra-a-paralimpiada/

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